Café com açúcar

Café. Açúcar, açúcar, açúcar, açúcar, açúcar...
- Quanto açúcar.
Assenti com um sorriso.
- Então, por onde quer começar? - perguntou.
O interesse pelo café desapareceu de repente.
- Sabe - comecei -, hoje me senti de uma maneira que não sentia há muito tempo. Não tanto, dois anos, coisa assim. Não foi bom.
- Eu sei que não foi bom - disse. - Eu sinto.
- Achei que nunca mais me sentiria assim.
- E por que não?
- Porque é passado. Não tenho os mesmos problemas de antes, então não sei o porquê de me sentir assim.
- Assim como?
- É meio vazio.
- Meio?
- Completamente. Ei, isso dói, sabia?
- Eu sei... Já lhe disse: eu sinto.
Cerrei os punhos sobre a mesa e engoli em seco.
- Você nem existe.
Um silêncio pairou por alguns segundos, mas logo foi quebrado por um longo suspiro.
- Mesmo que seja a verdade - disse. - Eu não gosto de ouvir esse tipo de coisa.
- Ninguém gosta de ouvir a verdade. - falei.
Ele mexeu os dedos na mesa, parecendo ansioso.
- Então, mesmo não existindo - ele voltou-se para mim, os olhos vazios. - Eu sinto e quero te ajudar.
- Desculpa, eu não devia ter dito isso.
- Esqueça as desculpas, você sabe muito bem o que penso delas.
- Sim, eu sei. - concordei. - Você sempre me chamou de dramática.
- E com razão.
Senti sua mão pousar-se sobre a minha e suspirei. Ele brincou com os meus dedos com um sorriso de lado nos lábios, mas parou subitamente. Senti seu sangue subir à cabeça e a raiva emergir em seus olhos. Eu o fitei.
- Você não...
- Sim.
- Você... Você disse que isso não ia acontecer de novo. - grunhiu entre os dentes.
- Sim, eu lembro. Eu disse. E sinto...
- Poupe os perdidos de perdão - interrompeu-me. - Por quê?
Um tremor percorreu o meu corpo, permaneci estática com medo de qualquer movimento. Meu estômago se contorceu ao ver a expressão em seu rosto: desapontamento.
- Eu tentei, e isso não vale como explicação, mas eu tentei e aguentei por muito tempo. Por favor, você tem que entender - senti meus olhos lacrimejarem, mas continuei. - Acredite em mim quando eu digo que tenho o dom de estragar as coisas, de entristecer as pessoas, de trazer o mal a qualquer lugar. Todas as pessoas com quem convivo partem, cansam, esquecem, abandonam. O problema está em mim, você sabe disso. Até você... - hesitei. - Um dia vai desaparecer. Eu não sei o que faço. Preciso de ajuda, mas não sei qual é o meu problema. Eu...
- Seu coração está doendo. - ele disse, de repente.
Eu queria lhe dizer que sim, mas tudo o que fiz foi desabar sobre a mesa.
- E eu sinto o quanto dói.
Segurei as lágrimas que lutavam pra sair e apertei sua mão que ainda pousava sobre a minha. Não era um apertar de mãos comum.
- Eu queria te ajudar... - começou.
- Mas você não existe. - concluí.
Por fim, consegui levantar o rosto e encará-lo novamente. Seus olhos mantinham o mesmo tom desapontado.
- Por mais que você queira, você não é a prova de balas. Ninguém é. A dor vai voltar. Eu vou voltar. Só prometa que...
- Não sou boa com promessas. - interrompi-o.
- Não vai se machucar de novo.
Ele deixou a cabeça pender. Levantou-se e colocou as mãos nos bolsos. A princípio achei que não haveria mais nada, como o usual. Apenas um adeus, tchau, até logo. Mas então senti seus braços me envolvendo fortemente em um abraço desajeitado e uma lágrima passeou pelo meu braço, solitária. Um murmúrio tomou forma e pude ouvir claramente: "Nunca se esqueça."
De repente não havia mais nada atrás de mim. Lá estava eu, em uma cafeteria, sentada sozinha e, como sempre, dois copos sobre a mesa.

16 de jul. de 2011

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